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Fala Leitor

A OLIMPÍADA BRASILEIRA

A cerimônia de abertura da 31ª Olimpíada, a Olimpíada Brasileira, foi realmente emocionante e acredito ter encantado o mundo inteiro, o Hino Nacional, cantado por Paulinho da Viola, a narração de nossa história, do descobrimento, à chegada dos portugueses e o choque cultural com primitivos habitantes, os africanos, que infelizmente como os escravos, contribuíram decisivamente para nosso desenvolvimento como nação e demais povos que foram chegando. Todas estas etapas foram entrando em campo de uma maneira bonita e compreensível para os estrangeiros. Gisele Bündchen desfilando na condição de Garota de Ipanema, tendo, como fundo musical, ao piano, Daniel Jobim, neto de Tom, o criador da obra prima. Não faltou nem a réplica do 14 Bis voando sobre o estádio. O primeiro time dos refugiados deu seu recado contra o preconceito.

O Maracanã virou um verdadeiro coral, quando a música “Aquele Abraço”, de Gilberto Gil, foi executada e, quando Jorge Benjor cantou “País Tropical”, o Maracanã virou salão de danças, os brasileiros puxaram e os estrangeiros tentaram imitar.

Elza Soares, com o “Canto de Ossanha”  de Baden e Vinicius constituiu-se, para bons entendedores, no grande momento político da cerimônia planetária de abertura das Olimpíadas do Rio de Janeiro. Sentada intrépida, rodeada por três jovens mulheres  negras  e cabelos black power, Elza não fez nada mais, nada menos que ressuscitar o “Canto de Ossanha” de 1966, ano dois da ditadura civil-militar de 1964. Elza devolveu a fala à voz feminina que foi suprimida da grande festa.

Foi um recado explícito, cortante e  feminino a Michel Temer, a grande estrela negativa da noite universal. “Coitado do homem que cai no canto de Ossanha, traidor”, cantou Elza. Este recado foi completado com a sonora vaia que o presidente interino recebeu e que foi abafada por uma música. Não era ele que deveria estar ali!

A entrada da delegação brasileira, ao som de Aquarela do Brasil, de Ary Barroso, foi uma verdadeira apoteose, além é claro, de toda a preocupação com a questão ambiental, que foi o tema central e permeou toda a cerimônia. O Brasil fez bonito para o mundo inteiro. Teve esta chance de sediar a Olimpíada e soube aproveitá-la.

Lamentamos que aqueles que batalharam para que o Brasil sediasse este congraçamento entre os povos, não tivessem sido lembrados neste momento tão bonito e significativo para nosso país.

Marina Lima Leal - professora

 

Para realizar sonhos é preciso definir a si mesmo

O que faz com que um atleta seja capaz de superar tantos obstáculos até alcançar o pódio Olímpico? São horas de esforço, dedicação, repetições, dor, desgaste físico e emocional, seletivas, rotinas duras de trabalho e ainda assim, a despeito de todas as adversidades, o esportista encontra motivação para ir além de seus limites e estabelecer novos recordes. Ação para ser super - Na junção das letras surge a palavra mágica que está presente minuto a minuto no vocabulário do atleta de ponta: superação.

No universo da física a palavra resiliência é usada para definir a capacidade de um material para voltar ao seu estado normal após sofrer uma grande pressão. É isso que acontece com um competidor de ponta, as derrotas são temporárias. Eles choram, sofrem e em seguida voltam ao seu estado natural de potência. São pessoas de alta resiliência e usam as derrotas temporárias para aprender com os mínimos detalhes que não deram certo. Não existe erro, existe possibilidade de aprendizado continuo. As falhas funcionam como alavancas para progredirem, pois através delas podem perceber os detalhes que precisam ser ajustados para chegarem mais próximo da perfeição.

Quando estamos diante de um ouro olímpico, nós admiramos, respeitamos, são ídolos de nações inteiras. Eles têm qualquer coisa de irreal, super-heróis, são semideuses. Deixamos de lembrar o árduo caminho que percorreram até chegarem nesse degrau do pódio. Se modelarmos as estratégias de um atleta de ponta e incluirmos em nosso dia a dia profissional e pessoal, presenciaremos verdadeiros milagres em nossas vidas. Para que a mágica aconteça será necessário muita disposição, energia, perseverança, empenho, coragem para praticar, agir e superar na área da vida que escolhermos. “Se é possível para um é possível para o outro também” desde que se esteja disposto a agir.

Independente do lugar em que uma pessoa se encontra nesse exato momento de sua vida é preciso se conscientizar que conquistar o que se quer não é uma questão de sorte onde alguns foram escolhidos. A vitória como resultado vem de uma junção de conhecimento com muitas estratégias, numa sequência correta.

Muitas pessoas querem ter mais dinheiro, família perfeita, trabalhar com o que gostam, a casa dos sonhos e um corpo escultural. Mas poucas pessoas sabem o que fazer para conseguir. Se você quer conquistar o pódio Olímpico de sua vida comece ajustando as perguntas que te levarão ao lugar que deseja. A primeira pergunta é: Quem eu preciso me tornar para ter o que quero? Antes do “ter” vem o “ser”, pois é o conjunto de hábitos, crenças e valores diários que constroem uma identidade. Um atleta de ponta acredita que é possível, têm hábitos saudáveis e pratica exaustivamente os exercícios físicos e mentais.

Se o objetivo é ser promovido e ganhar mais dinheiro, quem você precisa se tornar para chegar lá? Quais habilidades e comportamentos serão necessários desenvolver? Se o objetivo é ter um corpo escultural, quem você precisa se tornar para conseguir? O que você está disposto a abrir mão na sua vida diária? O que terá que fazer e deixar de fazer, mesmo que sinta dor e desconforto? A mesma pergunta “quem eu preciso ser para ter o que eu quero?” serve para qualquer coisa que se queria conquistar. Decida quem você quer ser no futuro e aja como se o fosse no presente.

Nem sempre é o atleta mais talentoso que chegará ao lugar mais alto do pódio e sim aquele que estiver mais bem preparado fisicamente e emocionalmente. O momento mágico é quando o corpo e a mente estão em perfeita harmonia, onde o único lugar é o aqui e o agora. É por essa sensação de plenitude, é por esse instante de perfeição que lutam os homens deuses, o ouro vem como celebração dessa conquista.

Hilda Medeiros - Coach e Terapeuta de profissionais liberais, empresários e executivos

 

A figura paterna

Falar em figura paterna em tempos líquidos não é uma tarefa fácil, seja porque vivemos numa época onde a figura do masculino é bombardeada de todos os lados ou simplesmente porque nos falta uma certa glamourização, que sobra na figura materna. Sobre as mães é mais fácil escrever, diante delas os poetas se enchem de inspiração que brota das entranhas e flui com naturalidade, os filhos, por sua vez, são tomados de memórias afetivas que colocam as mães num patamar quase angelical, basta lembrar que quase ninguém briga com o outro porque teve o pai xingado, mas se a mãe é ofendida, a confusão está formada; o mercado, – vilão para uns e herói para outros – por sua vez, parece ter uma capacidade enorme e inesgotável de se reinventar e oferecer um sem número de produtos para elas. Na prática sabemos como é, para as mães com todo merecimento, geladeiras, smartphones, já para os pais, “uma lembrancinha singela”, como um par de meias ou talvez uma camisa. É a vida amigo, acostume-se!

Suspeito, no entanto, que seja desta forma por razões sociais e históricas, pois não é verdadeiro que amamos mais nossas mães do que nossos pais - como se pudéssemos medir o amor devotado por meio de mercadorias -, mas é fato que nós pais ocupamos um lugar diferente na organização familiar se comparados à figura materna. Coube à figura paterna, desde priscas eras,  assumir uma posição de destaque no seio familiar ou como se dizia antigamente, de ser o “cabeça da casa”, e isto, trouxe responsabilidades culturalmente construídas que deixaram o papel dos pais mais difícil de ser executado, afinal, eles tiveram que ser referências dentro do clã, e isto, implicava ser um paradigma de liderança com toda austeridade que a função exigia e ao mesmo tempo exercer o ato de amar sua prole, sem que isso parecesse sentimental demais, pois a figura do macho, do lobo alfa, colou-se imediatamente na figura paterna e, desde então, ambas caminham como irmãs siamesas.

Deduz-se daí que a figura paterna colocou-se numa encruzilhada, onde a autoridade do líder teve que ser exercida de forma quase que inquestionável por um lado, mas por outro, tinha que ocorrer o exercício do cuidado providencial, daquele que amava sua família, mas precisava dosar tal atitude para não perder credibilidade. Claro que num cenário como este a tensão é a marca registrada. Nesta tensão, muitas relações de amor e respeito entre pais e filhos foram construídas, mas claro que também, muitas relações de ódio foram tecidas, pois muitos pais não sabendo lidar com este paradoxo, acabavam abusando de sua autoridade e tornando-se autoritários e anacrônicos no exercício da função paterna. Com isto, a figura paterna foi sendo desmanchada, diluída, foi sendo carcomida nem suas bases. E é claro que isso não é nada bom.

O que precisa ser resgatado imediatamente é o equilíbrio da função paterna, o meio termo entre a autoridade e o cuidado. Inúmeras pesquisas têm demonstrado a tragédia nos lares brasileiros em função da ausência da figura paterna. Segundo levantamento feito pelo Ministério Público de São Paulo, dois em cada três menores infratores não tem a figura paterna dentro de casa. A pesquisa foi feita com 1.500 jovens de 15 a 18 anos, entre 2014-2015 e demonstrou que 42% não vivem com os pais ou não tem contato algum com eles. Quando a figura paterna não está presente no lar para ser uma referência, tal função pode ser assumida por qualquer pessoa, inclusive, pelo traficante da região ou pelo bandido mais renomado do bairro. Pense nisto pai, você não é descartável e nem secundário, você é simplesmente diferente com suas atribuições que foram sendo construídas histórica e socialmente, mas a sua presença pode fazer uma diferença enorme na vida de seus filhos. Feliz dia dos Pais!

Gerson Leite de Moraes - professor de Ética da Universidade Presbiteriana Mackenzie - Campinas

 

Quanto ainda devemos ao Rio de Janeiro?

Muito dinheiro público foi investido na Rio 2016. Não só da cidade e do estado do Rio de Janeiro, mas também dos impostos de todos os brasileiros. O dinheiro está trazendo mais benefícios para os cariocas, mas a conta está sendo paga por todos. Isso é bastante justo, pois não podemos esquecer que o Rio de Janeiro foi vítima de um golpe nos anos 1960, praticado pelo governo federal, quando levou os três poderes e toda a máquina pública para Brasília.

Há muitas versões sobre o real motivo de tirar a capital do país do Rio de Janeiro, inclusive a de que seria muito mais fácil fazer política longe de cidadãos politizados. Ajuda a sustentar a tese o fato de Brasília estar afastada dos grandes centros, com um projeto urbano que coloca o poder longe do povo e o povo distante entre si. Com o que acontece na política de hoje, essa tese fica até mais factível, do que a de que era importante levar a capital para uma região no centro de um Brasil a ser desbravado.

Independente das questões estéticas e urbanísticas da atual capital, que maltrata todos seus habitantes em benefício da fotogenia, o certo é que a riqueza ostentada por Brasília foi usurpada do Rio de Janeiro. O Rio de Janeiro foi capital do Brasil de 1763 até 1960. Neste período, passou de 12 mil habitantes para 3,3 milhões. Durante quase dois séculos, a vocação da cidade foi direcionada para atender às demandas do Brasil. A bela cidade foi aterrada, deformada, inchada e maquiada, tudo para atender às necessidades do país e dos que se instalavam lá para exercer o poder e ocupar os cargos da máquina pública.

Diferente de Brasília, o Rio não era lugar de passagem dos políticos durante três dias da semana ao longo de oito meses do ano. O Rio era desejado como um prêmio extra para o cumprimento do mandato. A cidade foi ganhando a forma desejada pelos que lá chegavam de todas as partes do Brasil. As melhores escolas, melhores hospitais, segurança reforçada, além dos melhores teatros, cassinos, hotéis e bordéis, não estavam lá para atrair turistas, mas para servir e entreter o poder e os que orbitavam em volta dele.

Com a retirada à força da vocação, da riqueza e dos milhares de empregos, a cidade foi entregue aos órfãos do poder. Ficou a população sem um plano de geração de renda para sustentá-la. Não sei se o jeitinho e a capacidade de improvisação do carioca surgiram nesses tempos, ou se já existiam, mas foi a alternativa encontrada por eles. 1960 marcou o início de duas mazelas para o Brasil: a criação de uma capital que levou o poder para longe do povo e o declínio de uma cidade que, além de ser a mais bela do mundo, era culta, politizada, rica e acordou sem poder, sem trabalho e sem projeto de futuro. Apesar disso, o Rio de Janeiro continuou sendo a imagem do Brasil e do brasileiro no exterior, e teve que se reinventar ao longo dos anos.

Nas últimas idas ao Rio de Janeiro, visitei o Porto Maravilha, o Museu do Amanhã e o MAR - Museu de Arte do Rio, andei no VLT, caminhei pelo centro e parei para sonhar na Confeitaria Colombo. Como seria o Brasil e, principalmente, o Rio de Janeiro se não existisse Brasília? Como seria a convivência entre o povo e o poder, com as autoridades morando nos mesmos prédios e frequentando os mesmos lugares que o carioca? Acho que o Brasil seria melhor!

Meu sonho foi interrompido pelo garçom Orlando Duque, que há 64 anos trabalha na Colombo. Ele já atendeu príncipes, presidentes e malfeitores naquelas mesas, atendeu as pessoas que moldaram nossa cultura, economia e política no século XX. Ele testemunhou a glória e o declínio do Rio de Janeiro e agora está otimista com os novos admiradores que a cidade maravilhosa está ganhando. Não sou carioca, mas, desde a cerimônia de abertura da Rio 2016, me vi representado e feliz de estar ajudando a pagar um pouco do que o Brasil deve à esta cidade.

Carlos Sandrini - arquiteto, urbanista e presidente do Centro Europeu.

 

O ônus da verdade vivida

A criança talvez não seja capaz de articular plenamente o modo como seu mundo se encaixa, nem o homem de expressar o significado de sua vida em palavras. Para a maioria de nós, a visão do mundo é uma verdade vivida, algo que simplesmente existe e que dificilmente procuramos descrever. Na verdade, só há motivação para fazê-lo se algo vai mal, se de alguma maneira nossa visão de mundo está inadequada ou em fase de mudança. Só então tomamos consciência dela (Danah Zohar, "O Ser Quântico").

Há poucos anos atrás a maioria de nosso povo, pobre, estava embalada no cântico de demagogos. As classes sociais haviam deixado de ser castas. Movimentavam-se de modo ascensional. A pobreza desaparecia. O emprego mostrava números satisfatórios. O Governo não se queixava de faltas de verbas públicas. Ao contrário. O FMI poderia receber nossa ajuda. Tirava-se sarro dos loirinhos de olhos azuis. A crise, ora, uma marolinha num oceano pacífico.

No momento em que as ondas se agitaram, ainda não foi hora da consciência do perigo. O Estado socorreu segmentos como o dos automóveis, sob os aspectos tributário e financeiro. Empréstimos longos, supostamente nos limites do orçamento, e carros "zero", jamais sonhados. O Brasil ainda não voava, mas era um avião que taxiava para tanto.

Ninguém percebia - ou queria perceber - que estávamos assentados sobre um vácuo de falsos potenciais. O dinheiro que nos mantinha derivara de conjunturas favoráveis, mas se entendia que caminhávamos sob mudanças estruturais, ainda que sob um Estado politicamente desorganizado, carente das reformas tão decantadas: política, administrativa, trabalhista, financeira, tributária. Sobre essas pilastras mal ajambradas, não se ergueria um estado de bem-estar permanente. Entretanto, a vida "vivida" dizia outra coisa. E a gerência política mantinha a falsa impressão, fundamental para seus propósitos eleitoreiros.

É claro que um edifício erguido nessas condições desaba, como desabou. O mal começou a dar as claras em momento eleitoral e, consequentemente, foi preciso manipulá-lo, fazer o diabo para manter o projeto de poder. Vieram à lume os acordos indecorosos com o legislativo para manter-se a miragem. A lei não poderia permanecer morta e ressuscitou. Ídolos começaram a descambar, um indício de que a consciência coletiva da maioria poderia começar a despertar para necessidade de mudanças, segundo aquele postulado da física.

Em verdade, são poucos os que têm consciência da vida do momento, seja materialmente boa ou má. A consciência mira o futuro, dias melhores (a teleologia aristotélica). É mais fácil saber o que queremos, ou com o que sonhamos, do que ter clareza sob os componentes de nossa realidade atual.

O barco soçobrou e, agora assim, temos consciência de que devemos escapar do naufrágio. Em política, porém, não há consenso. Felizes dos países que se limitam a dois grupos antípodos. Temos uma miríade de partidos sem cor, sem dor e sem valor, em que preponderam interesses pessoais e grupais.

O que se apresentou como ideológico se transformou numa gosma solidária de solidariedade aos corruptos. Dizem que retornarão do zero, da brancura das virtudes. É pagar para ver.

Só há um caminho, ainda que não se tumultue tudo com a deposição do governo provisório sob uma alegação de urgência e indesejável correria. Não há dúvidas de que, agora, conscientes do futuro, não mais crianças ou adultos alienados, devamos pensar na extração de nossos caroços prontos a se metastasiar, a partir de um novo texto constitucional que estabeleça com densidade e força os princípios das reformas estruturais, sem as quais não teremos sequer como caminhar a pé, pausadamente, mas em frente e com segurança.

Amadeu Roberto Garrido de Paula - advogado subscritor da respectiva petição inicial e poeta. Autor do livro Universo Invisível, membro da Academia Latino-Americana de Ciências Humanas.

 

A Lei Maria da Penha: experiências e tendências nestes 10 anos

Dois casos dramáticos de violência doméstica tiveram grande repercussão nos meios de comunicação nacional e internacional. O primeiro caso teve como vítima a atriz Luiza Brunet, que segundo denúncia oferecida pelo GEVID do Ministério Público de São Paulo, contra seu ex-marido Lírio Parisotto, este teria praticado crimes de lesão corporal leve e grave (o autor teria fraturado a costela da vítima e quebrado seu dedo), em episódios ocorridos nos EUA e no Brasil, contra a atriz.

O segundo caso ocorreu no interior de Goiás, onde a vítima, de apenas 17 anos, nascida na cidade de Votorantim, teria sido mantida em cárcere privado e torturada por mais de um ano por seu ex-namorado Gustavo Vinicius de Oliveira Bernardino (inclusive igualmente quebrando o dedo da vítima, com facadas, mordidas, socos, chineladas, atingindo a vítima com pedaço de ferro e vassouradas). Segundo a jovem vítima, o agressor costumava “bater nela” e “rir”. A jovem disse o seguinte: “Pedi a Deus para morrer”. O caso apenas foi descoberto após um acidente de trânsito, quando o corpo de bombeiros notou que os ferimentos da vítima não tinham relação com o acidente e a levaram ao hospital, onde ela pode contar o que estava sofrendo. Em ambos os casos as vítimas conseguiram romper com o silêncio.

O Brasil nasceu sobre a colonização escravocrata e tradição cultural machista. Por esta razão, durante muitos anos, os atos criminosos praticados na esfera privada ficavam impunes. Note-se que é no espaço privado que as mulheres sofriam e ainda sofrem mais atos de violência. Aplicava-se a conhecida expressão de que “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher”.

Neste contexto, a lei Maria da Penha foi um divisor de águas, pois há 10 anos rompeu com este paradigma de violência doméstica e da impunidade total em atos criminosos praticados na esfera doméstica. Com efeito, esta lei tornou-se muito conhecida entre a população brasileira. Foi reconhecida pela ONU como uma das três melhores legislações a respeito do tema violência doméstica. Entende-se por violência doméstica e familiar contra a mulher qualquer ação ou omissão baseada no gênero que lhe cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual, psicológico, sexual ou patrimonial.

Ocorre que a cultura da violência doméstica contra as mulheres ainda existe, assim também as mulheres continuam, a despeito da legislação, silenciadas, e com medo de denunciar, o que gera, consequentemente, a impunidade. As estatísticas confirmam estas assertivas. Dados recentes da Organização Mundial de Saúde apontam que 30% das mulheres brasileiras afirmam terem sido agredidas por parceiro ou por alguém de seu convívio próximo. Relevante também outro estudo da OMS que indica que pelo menos 20% das mulheres agredidas pelos maridos permanece em silêncio. Um balanço do disque 180 aponta que 80% dos casos de violência doméstica reportados não chegam a ser denunciados.

Com efeito, embora a lei não tenha sido suficiente para eliminar a violência doméstica contra as mulheres, sem sombra de dúvidas foi responsável por dar visibilidade ao problema e para apontar, as tendências e os caminhos longos e árduos para as suas soluções.

As políticas públicas para as mulheres aumentaram muito, como ampliação do número de abrigos, do número de CREAS, dos Centros de Referência para a Mulher, com o incremento de discussões a respeito da desigualdade de gênero que atualmente é tema recorrente nas universidades, na formação de coletivos feministas, nos órgãos públicos como o Ministério Público, no sistema de justiça, na sociedade civil e na imprensa. O Ministério Público colaborou para efetivação destas políticas. Em Votorantim, por exemplo, firmou-se termo de ajustamento de conduta (acordo) inovador com o Poder Público Municipal que garante transporte para as vítimas de violência doméstica, oferece acesso à equipe multidisciplinar (atendimento psicossocial) e abrigo emergencial, tudo isto sob pena de multa em caso de descumprimento. Este é apenas um dos exemplos de como a lei pode e precisa ser efetivada, espontaneamente pelos poderes executivos Municipais e Estaduais, ou em colaboração com o Ministério Público.

Neste contexto, verificam-se duas etapas nesta evolução, a primeira etapa dos direitos humanos das mulheres, em especial de não serem vítimas de violência doméstica, iniciou-se com o reconhecimento formal destes direitos pela Convenção CEDAW (1979) e pela Convenção de Belém do Pará (1994), no âmbito internacional. Foi a própria Convenção do Belém do Pará que serviu de fundamento jurídico para que Maria da Penha buscasse amparo na esfera internacional ao seu direito, que estava sendo violando pelo sistema jurídico brasileiro, muitas vezes lento e ineficiente. E também no âmbito local, posteriormente ao caso, com a edição da Lei Maria da Penha.

A segunda etapa encontra-se em andamento, e consiste na efetivação destes direitos, por meio da execução de políticas públicas voltadas à mulher. O exercício desses direitos não virá de graça, estes terão que ser conquistados por todas as mulheres e homens que almejam viver numa sociedade mais justa, com mais equidade e menos violenta. É chegada a hora de rompermos com o silêncio, como fizeram a jovem e a atriz. Precisamos trabalhar no sentido da prevenção e repressão da violência doméstica. Uma mudança cultural na nossa sociedade é fundamental, pois só assim adotaremos as ideias de que “tapa de amor dói”, “mulher não gosta de apanhar” e “em briga de marido e mulher se mete a colher”. Assim, despidos de preconceito e discriminação, poderemos exigir que a lei Maria da Penha saia totalmente do papel e seja efetivada, possibilitando a todas as vítimas o pleno acesso à justiça e à rede de atendimento à mulher.

Fabiana Dal’Mas Rocha Paes -  integrante do MPD – Movimento do Ministério Público Democrático, promotora de justiça do GEVID – Grupo de Atuação Especial e Enfrentamento à Violência Doméstica, mestre em Direitos Humanos e Justiça Social pela UNSW, Sydney, Austrália e doutoranda em Direito, pela Universidade de Buenos Aires, Argentina

 
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